Reconstruir a casa e reconstruir me a mim mesma

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Já escrevi aqui que comecei a recuperar o meu apartamento num período difícil da minha vida... foi talvez um dos piores momentos pelo qual passei, e acreditem que já passei um bom bocado ao longo dela... não tive uma infância fácil, sempre tive que lutar para sobreviver, mas foi quando pensei que podia baixar os braços e parar de lutar que descobri que nunca devia ter baixado a guarda. 
Fruto dessa infância difícil, sempre me defendi demais, no entanto por baixo da capa de durona fervilhava uma sonhadora, que acreditava em histórias de encantar e ansiava pelo príncipe em cima de um cavalo branco que a viesse salvar daquela triste sina que parecia a sua vida... sonhei, sonhei muito... até que um dia o tal príncipe apareceu. Esperara 26 anos por ele, e o primeiro namorado viria a ser depois meu marido. 
Vivi tudo aquilo porque esperara, a vida de sonho que desejara,  até que um dia o feitiço se desfez e o príncipe virou sapo. 
O sonho desfez-se assim como o meu casamento com o homem que todos os dias me fazia sentir uma princesa, até ao dia em que vi que era tudo uma mentira. 
Chorei demais, achei que o mundo ia acabar... descobrira que o homem que amava não era só meu, perdera o meu príncipe, o meu homem, o meu melhor amigo e o meu companheiro de viagens.
Naquelas semanas em que o meu mundo desmoronou só queria que o mundo acabasse, deixei de pensar, de sorrir, de comer... Mas aquela vozinha na minha cabeça só me dizia para me voltar a erguer... que era só mais um tropeção na escada íngreme da minha vida. Uma vida que terminara para construir uma outra. 
Foi neste período complicado que procurei o meu canto para estar sozinha, sem perguntas, sem espaços invadidos. 
Cada parede deitada abaixo, cada etapa da reconstrução, foi me ajudando a erguer-me como se cada parte da casa que recuperasse me estivesse a reconstruir a mim também.
Levei aquelas tarefas como uma cruz que tinha que carregar, cada vez que chorava, ia exorcizando os meus demónios, deixei de chorar por amor para chorar de dor, dor pelas tarefas duras que tinha, pelos dedos pisados ao tirar o pavimento, por carregar sozinha todos os sacos de cimento, tintas, tijoleiras... e quando reparei já não chorava mais.
Quando o nosso mundo desmorona pensamos mesmo que é o fim, e embora todos nos digam que não é e que vamos conseguir ultrapassar, estamos doentes demais para os entender, mas é sabio o dito que "o tempo tudo cura", e até as nódoas negras que fiz para tirar o taco de madeira passaram e aos poucos as que tinha na alma também diluíram.

(source:www. deviantart.com)

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